História de paciente reforça a importância do diagnóstico precoce do câncer de cabeça e pescoço.

Vivendo a vida fumando e bebendo socialmente, Osvaldo decidiu procurar ajuda médica após a persistência de alguns sintomas.
Em 2015, Osvaldo Nasato, natural de Americana (SP), de 59 anos, começou a sentir uma rouquidão. Ela ia e voltava, de tempos em tempos. Porém, com o passar dos anos, o sintoma deixou de desaparecer e passou a gerar preocupação. “Isso é sintoma de câncer”, “procure um médico, pode ser câncer”, ele escutava, enquanto a angústia aumentava.
Vivendo a vida fumando e bebendo socialmente, Osvaldo decidiu procurar ajuda médica após a persistência dos sintomas. Depois de realizar alguns exames, recebeu uma notícia difícil: foi diagnosticado com câncer de cabeça e pescoço e precisou iniciar o tratamento oncológico.
O câncer de cabeça e pescoço raramente é decorrente de fatores genéticos. Na maioria dos casos, está associado ao consumo de tabaco e álcool. Embora a rouquidão tenha sido o primeiro sintoma apresentado por Osvaldo — um sinal precoce do câncer de laringe —, outros sintomas também podem indicar a presença do tumor, tornando fundamental a avaliação por um médico especialista.
“Em alguns casos, o câncer de laringe pode causar rouquidão porque está acometendo as pregas vocais. Outras estruturas da laringe podem ser afetadas e causar dificuldades para engolir e respirar, podendo até ser necessária a realização da traqueostomia (procedimento cirúrgico que faz uma abertura na traqueia e no qual é colocada uma cânula para permitir a respiração), quando o tumor está obstruindo a passagem do ar na laringe”, explica o cirurgião oncológico do Hospital de Amor, Dr. Renato Capuzzo.
A rouquidão não está diretamente relacionada à gravidade da doença, mas é um importante sinal de alerta, principalmente quando persiste por mais de 15 dias. Além dela, caroços ou nódulos no pescoço e feridas na boca que não cicatrizam nesse período também merecem atenção.
Contudo, ninguém espera receber um diagnóstico de câncer. Nesse momento, o medo falou mais alto. Osvaldo abandonou o cigarro e encontrou apoio nas pessoas que eram importantes para ele. Embora o tratamento tenha sido feito sem grandes intercorrências, o processo foi bastante doloroso.
Em 2020, Osvaldo realizou sua primeira consulta no Hospital de Amor. Juntamente ao Dr. Renato Capuzzo, médico responsável pelo caso, foi definido que ele faria 29 sessões de radioterapia. “Em tumores iniciais, não costumamos indicar quimioterapia. Quando Osvaldo chegou ao Hospital de Amor, o tumor dele estava em estágio inicial e foi tratado exclusivamente com radioterapia, em 2020. Contudo, esse tratamento não conseguiu eliminar todo o tumor, e foi necessária a indicação do tratamento cirúrgico para controlar o câncer de laringe”, relembrou Capuzzo.
Foi nesse momento que Osvaldo precisou se apoiar, mais do que nunca, no amor, na esperança e na fé das pessoas ao seu redor. Para conter a evolução da doença, ele foi encaminhado ao centro cirúrgico para realizar a laringectomia total, procedimento que pode provocar mudanças na fala, na respiração e na deglutição.
“Esta cirurgia consiste na retirada total da laringe e faz com que a respiração passe a ser realizada definitivamente pelo pescoço, além de provocar a perda da voz convencional”, explicou o especialista. Osvaldo relembra que, após a cirurgia, entrou em desespero. “Eu não conseguia respirar, não conseguia falar, eu estava desesperado. Quando o médico entrou no quarto e me explicou o procedimento, eu entendi. Naquele momento, ele também me explicou que eu respiraria pelo pescoço e que ficaria sem falar por alguns meses, já que eu não tinha mais voz.”
A adaptação não foi uma tarefa fácil. Diversas vezes, ele sentiu vontade de comer algo sólido — já que sua alimentação era 100% líquida —, de usar a voz e de retomar atividades simples do dia a dia. “Depois do tratamento, muita coisa mudou na minha vida. Hoje, eu não posso trabalhar nem tomar banho normalmente, entre outras coisas”, contou.
“Para que ele tivesse a reabilitação vocal, optamos pelo uso da prótese traqueoesofágica. Mesmo que existam outros métodos, como a laringe eletrônica e a voz esofágica, os nossos melhores resultados, em termos de qualidade vocal, são obtidos com a prótese”, explicou o médico.
A esperança ganhou força no dia em que ele recebeu a notícia de que colocaria a prótese. “A equipe médica e a fonoaudióloga já haviam me explicado como seria o processo de recuperação da cirurgia e as próteses disponíveis para a reabilitação vocal. Quando eu coloquei a prótese e falei o meu primeiro ‘bom dia’, eu me emocionei muito, e as pessoas que estavam presentes também. Foi muito bom ouvir a minha voz novamente”, desabafou, emocionado.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil para o triênio 2026–2028. De acordo com o cirurgião oncológico, Dr. Renato Capuzzo, o grande problema no Brasil é que o câncer, principalmente o de cabeça e pescoço, ainda chega aos centros de tratamento, na maioria dos casos, em estádios avançados. E esse cenário pouco mudou ao longo dos anos.
“Tumores avançados necessitam de tratamentos mais complexos e, muitas vezes, mutilantes, como a laringectomia total. Enquanto não melhorarmos os índices de diagnóstico precoce e, principalmente, o acesso aos centros de tratamento oncológico, essa realidade não vai mudar”, reforçou o cirurgião oncológico.

O Coral Papo Furado é formado por pacientes laringectomizados do Hospital de Amor.
Segundo o INCA, a prevenção primária está baseada em hábitos fundamentais, como não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool, realizar a vacinação contra o HPV e usar proteção solar para prevenir o câncer nos lábios. Quando diagnosticado na fase inicial, o tratamento consiste em cirurgias menos agressivas ou em radioterapia, que causam menor comprometimento das funções da cabeça e do pescoço, como mastigar, sentir o gosto e o cheiro dos alimentos, engolir, respirar e falar. Além disso, provocam menor ou nenhuma deformidade na face e no pescoço e reduzem as chances de complicações funcionais. Por isso, o diagnóstico precoce é essencial, já que, quando tratado adequadamente, esse tipo de câncer pode apresentar taxa de cura superior a 90% em cinco anos.
“Prevenção, conscientização e melhores estruturas de diagnóstico e referenciamento para tratamento dentro do SUS são fundamentais para começar a mudar esse quadro”, destacou Capuzzo. Por isso, conscientizar a população sobre a doença, seus sinais, sintomas iniciais e formas de prevenção é um passo essencial para ampliar as chances de diagnóstico precoce.
Mas, se no fim do túnel sempre há uma luz, no fim do tratamento sempre há esperança. Fora de qualquer perigo, Osvaldo recebeu um convite especial: participar do Coral Papo Furado, grupo formado por pacientes laringectomizados do Hospital de Amor. É nesses encontros que ele se sente acolhido e em casa. “Não vejo a hora de encontrar os amigos e cantar. Isso me faz muito bem. O Papo Furado foi ótimo para mim, pois me fez aceitar ainda mais o meu problema”, afirmou.
O Coral Papo Furado surgiu em 2002 com poucos integrantes. Ao longo dos anos, o grupo cresceu e hoje é reconhecido pelo Hospital de Amor e por parceiros da instituição, incluindo artistas musicais. Além de contribuir para a reabilitação e a inclusão dos pacientes, desenvolvendo a autoestima e melhorando a qualidade de vida, o projeto também incentiva a autossuperação. Para quem não imaginava voltar a falar, cantar e se apresentar representa uma grande conquista.
O desfecho dessa história é marcado pela esperança e pela conscientização. O principal aprendizado que ficou para Osvaldo é que ninguém está imune à doença. “Comigo aconteceu, infelizmente. Então, se eu pudesse dar um conselho para as pessoas, seria: pare de fumar, cuide da sua saúde e, se sentir qualquer sintoma ou dor, procure um especialista”, concluiu.
