Evento da unidade infantojuvenil do Hospital de Amor reforça a importância do cuidado com famílias e profissionais que vivenciam o processo de luto.

O processo de luto é individual e merece ser compreendido em todas as suas fases.
Viver o processo de luto é um caminho marcado por incertezas. Isso porque o luto não é linear, como se tivesse uma ordem cronológica para sentir, chorar, compreender e aceitar.
O processo de luto é individual e merece ser compreendido em todas as suas fases, que consistem em: negação, raiva, barganha/negociação, depressão e aceitação. Por mais que, na teoria, essa explicação faça sentido, no campo emocional essas fases podem coexistir, sem um tempo determinado para cessar.
Por esse motivo – e tantos outros –, a unidade infantojuvenil do Hospital de Amor realiza, desde 2010, o evento “Encontro Acolher”, idealizado pela oncologista pediátrica Dra. Erica Boldrini. O projeto oferece um espaço de escuta, palestras com especialistas e troca de experiências para ajudar no processo de ressignificação do luto, apoiando pais e familiares que perderam crianças e adolescentes durante o tratamento oncológico.
A escritora e médica paliativista Dra. Ana Claudia Quintana Arantes define o luto como um “amor além da vida”, sendo um processo de transformação inevitável, que não tem prazo de validade nem tempo estipulado. De acordo com ela, o luto não tem fim, mas a dor que ele expõe pode ter fim ou, ao menos, encontrar um enorme alívio.

O caminho para isso é uma travessia que exige paciência, compaixão e muita dedicação ao autoconhecimento.
O caminho para isso é uma travessia que exige paciência, compaixão e muita dedicação ao autoconhecimento. A morte é um fato e, por isso, é importante compreendê-la para ressignificar o luto. A humanização do Hospital de Amor também está presente nesse processo. Toda a equipe compreende que a pessoa que se foi é o amor de alguém e, por isso, entende que os familiares precisam de acompanhamento durante toda a travessia do luto.
Quando uma mulher engravida, ela fica ansiosa para escutar o batimento cardíaco do bebê. Por isso, quando uma criança falece na unidade infantojuvenil do HA, a família recebe, como gesto de carinho, cuidado e empatia, um registro dos últimos batimentos cardíacos do filho, além de outras lembranças que tornam esse momento de despedida mais respeitoso e repleto de significado. Depois disso, é importante que a pessoa que esteja vivendo o processo de luto fale sobre o assunto, no seu tempo e do seu jeito. Afinal, o maior legado que alguém pode deixar são as memórias. É nelas que o amor se restabelece, encontrando um lugar único em cada coração.
Ana Claudia Quintana Arantes nos convida à seguinte reflexão: “Onde a sua alegria se esconde depois que você descobre que a única coisa que fica, da pessoa que morreu na sua história, é o amor que vocês viveram nesse tempo lado a lado?”
E é exatamente isso que o Encontro Acolher busca oferecer aos familiares que perderam um ente querido. O evento é um marco de solidariedade, humanização e muita emoção. Neste ano, o tema deu continuidade à reflexão sobre “Luto e Religião: A Morte em Diferentes Culturas”. Com a parceria do Instituto Sociocultural e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), a unidade infantojuvenil realizou a 16ª edição do projeto com convidados especiais: a Dra. Lilia Maria Caldas Embiruçu, médica neonatologista do Hospital Geral Roberto Santos, em Salvador (BA), e o Dr. Nichollas Areco, doutor e mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), com foco em Psicologia da Saúde e Desenvolvimento.
Uma das grandes referências brasileiras em humanização do luto parental e comunicação compassiva, a Dra. Lilia Embiruçu dedica sua trajetória ao cuidado de famílias que enfrentam a perda de um bebê, desenvolvendo práticas que promovem acolhimento, dignidade e respeito nos momentos mais difíceis da vida. Seu trabalho ganhou reconhecimento nacional por iniciativas de humanização do luto, entre elas a confecção de pequenas roupas para bebês que não sobreviveram, proporcionando às famílias despedidas mais respeitosas e cheias de significado.
Para que a equipe da unidade infantojuvenil consiga oferecer suporte aos familiares, é importante que seus profissionais também compreendam o luto e ressignifiquem esse sentimento. Eles também criam vínculos e passam pelo luto quando um paciente falece. Por isso, no dia anterior ao evento, a Dra. Lilia Embiruçu realizou uma capacitação para os colaboradores da instituição.
Nesse encontro, ela explicou aos profissionais como atuar no processo de morte e luto, respeitando a família em sua totalidade, desvinculando o cuidado de uma visão exclusivamente religiosa e compreendendo o que é sagrado para cada família no momento da morte. Tudo isso faz parte do cuidado oferecido pela equipe.

Debora Rebollo é enfermeira e gerente administrativa do HA infantojuvenil.
Para a enfermeira e gerente administrativa da unidade infantojuvenil, Debora Rebollo, é importante que esse cuidado também se estenda aos colaboradores. “O Encontro Acolher acontece há mais de dez anos e muitas pessoas pensam que o acolhimento é só para as famílias. Quando um paciente chega a óbito, como fica a equipe que esteve com essa criança e com essa família durante todo o processo de tratamento? Nós também, enquanto profissionais, temos o nosso processo de luto, que precisa ser olhado, cuidado e carinhosamente acolhido. Então, isso é o acolhimento das famílias e também o acolhimento dos profissionais”, destaca.
Contribuindo ainda mais com o evento, o Dr. Nichollas Areco falou sobre espiritualidade e ressignificação. Juntamente a Dra. Lilia Embiruçu, ele conversou com os convidados e conduziu uma dinâmica com os participantes. Ao final, eles propuseram que cada participante escrevesse uma carta. Em seguida, algumas pessoas compartilharam suas cartas com o público.
Fomos, somos ou seremos enlutados. Por isso, ressignificar o luto é um dos propósitos da instituição. A médica oncologista pediátrica e especialista em Cuidados Paliativos, Dra. Erica Boldrini, ressalta que o luto é algo que acontece com todos nós. “Ele é universal. E, na verdade, a gente não precisa de tratamento para ele, porque ele não é uma doença.”
“Hoje, essas famílias que vêm para cá são famílias que querem celebrar tudo o que passaram aqui com a gente e, muitas vezes, agradecer aos profissionais, porque eles acabam se tornando parte da família também. Então, o Encontro Acolher foi a maneira que encontramos para vivenciar, comemorar e celebrar a vida de alguém que já partiu”, destacou.
Após uma programação repleta de emoções e significados, os participantes foram convidados para o momento mais esperado do dia: a soltura dos balões em forma de coração. Para essa última dinâmica, eles escrevem um bilhete para seu ente querido e o colocam no balão. Depois de se reunirem em um mesmo espaço, soltam os balões juntos — um gesto que leva paz aos corações enlutados.
Por fim, o aprendizado que o evento nos deixa é que o luto faz parte da nossa jornada e nos ensina que é possível amar tanto na presença quanto na ausência. O amor é o segredo de tudo.

Fomos, somos ou seremos enlutados. Por isso, ressignificar o luto é um dos propósitos do Hospital de Amor.
