Relatório mundial aponta desigualdades no acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento. No Brasil, experiência do Hospital de Amor mostra como assistência, pesquisa, formação e inovação podem contribuir para fortalecer as respostas do SUS.

No Brasil, a experiência do Hospital de Amor ajuda a mostrar como conhecimento e estrutura podem se transformar em respostas concretas de saúde pública.
O avanço do câncer projetado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para as próximas décadas não poderá ser enfrentado apenas com mais leitos ou novas tecnologias. Será necessário construir sistemas capazes de prevenir, diagnosticar precocemente, tratar com qualidade e acompanhar cada pessoa ao longo de toda a jornada de cuidado. No Brasil, a experiência do Hospital de Amor — que integra prevenção, assistência, reabilitação, ensino, pesquisa e inovação em uma rede 100% SUS — ajuda a mostrar como conhecimento e estrutura podem se transformar em respostas concretas de saúde pública.
Lançado em julho, o Relatório Mundial sobre a Situação do Câncer 2026 apresenta um dos panoramas mais abrangentes já produzidos sobre a doença. Em 2024, aproximadamente 20,6 milhões de pessoas receberam um diagnóstico de câncer no mundo e quase 10 milhões morreram em decorrência da doença. Sem uma resposta mais rápida e coordenada, o número anual de novos casos poderá chegar a quase 35 milhões em 2050.
O documento parte de uma constatação direta: a ciência já conhece parte importante dos caminhos capazes de reduzir o impacto do câncer. Há evidências sobre prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce, tratamentos eficazes, reabilitação e cuidados paliativos. O grande desafio está em fazer com que esse conhecimento se transforme em cuidado acessível para todas as pessoas.
A estimativa é que uma em cada cinco pessoas desenvolva câncer ao longo da vida. Mas o relatório deixa claro que o risco de adoecer é apenas uma parte do problema: as possibilidades de descobrir a doença precocemente, receber tratamento adequado e sobreviver continuam profundamente condicionadas pelo lugar onde a pessoa vive e por sua situação econômica.
Nos países de alta renda, por exemplo, cerca de 87% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama permanecem vivas cinco anos após o diagnóstico. Nos países de baixa renda, essa proporção cai para aproximadamente 42%. Menos de um terço dos países inclui atualmente um conjunto básico de cuidados oncológicos em seus sistemas de cobertura universal de saúde. “Sobreviver ao câncer jamais deveria depender do local de nascimento ou da renda de uma pessoa”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, no lançamento do relatório.
Um chamado para cuidar de pessoas, não apenas da doença
Além dos indicadores de incidência e mortalidade, a OMS ouviu pessoas diagnosticadas com câncer, familiares e cuidadores. Os relatos revelam impactos que ultrapassam a dimensão clínica: pelo menos 45% enfrentaram dificuldades financeiras, mais da metade relatou problemas relacionados à saúde mental e quase todos os cuidadores disseram ter sofrido algum tipo de sobrecarga.
A constatação reforça que enfrentar o câncer não significa apenas oferecer tratamento. É necessário construir uma rede que acompanhe a pessoa desde a promoção da saúde e a prevenção até o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a sobrevivência e, quando necessário, os cuidados paliativos.
O documento propõe três mudanças centrais: ampliar as capacidades dos sistemas de saúde; fortalecer a proteção oferecida às pessoas; e direcionar investimentos, pesquisas e tecnologias para soluções que entreguem resultados reais, com equidade e qualidade de vida.
A prevenção ocupa lugar decisivo nessa estratégia. Quase quatro em cada dez casos de câncer no mundo estão associados a fatores potencialmente evitáveis, como tabagismo, consumo de álcool, infecções relacionadas ao HPV e às hepatites, excesso de peso, inatividade física e exposição a determinados agentes ambientais. Ao mesmo tempo, a OMS alerta que programas de detecção precoce ainda não alcançam escala suficiente em muitos países de baixa e média renda.

A experiência do HA ajuda a demonstrar como diferentes frentes podem atuar de maneira integrada dentro do SUS.
O alerta global encontra o Brasil
No Brasil, as projeções também exigem preparação. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 781 mil novos casos por ano no triênio 2026-2028. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma, são aproximadamente 518 mil diagnósticos anuais.
A doença se aproxima das cardiovasculares como uma das principais causas de morte no país. As estimativas também revelam diferenças regionais importantes: tumores como os de colo do útero e estômago têm maior peso nas regiões Norte e Nordeste, enquanto cânceres relacionados ao tabagismo são mais frequentes no Sul e no Sudeste.
Essas diferenças refletem fatores sociais, ambientais e comportamentais, mas também desigualdades no acesso à informação, à vacinação, aos exames de rastreamento, ao diagnóstico e ao tratamento oportuno. Em um território de dimensões continentais, distância e endereço ainda podem interferir diretamente na trajetória de quem enfrenta o câncer.
Para o Dr. Raphael Haikel Jr., diretor executivo do Hospital de Amor e um dos principais responsáveis pela expansão da frente de prevenção da instituição, o crescimento projetado não deve ser tratado apenas como uma demanda futura por mais atendimento. “Essa resposta precisa começar antes da doença, com programas organizados de prevenção e rastreamento, integração com a Atenção Primária e capacidade de conduzir rapidamente cada caso suspeito até o diagnóstico e o tratamento. Em um país tão desigual, reduzir distâncias e tempo de espera também é uma forma de reduzir mortes evitáveis”, afirma.
Uma rede construída em torno do cuidado integral
A experiência do Hospital de Amor ajuda a demonstrar como diferentes frentes podem atuar de maneira integrada dentro do SUS.
Em 2025, a instituição realizou 2.080.932 atendimentos, entre consultas, exames e procedimentos, nas áreas de prevenção, tratamento e reabilitação. Foram atendidas 613.178 pessoas provenientes de 2.711 municípios — quase metade das cidades brasileiras —, de forma 100% gratuita.
Com oito unidades de tratamento, 24 unidades fixas de prevenção e mais de 50 unidades móveis, o HA atua para aproximar exames e orientação de populações que vivem longe dos grandes centros. Somente em 2025, foram realizados mais de 500 mil exames de rastreamento para diferentes tipos de câncer.
A telessaúde também tem contribuído para reduzir distâncias. No mesmo período, o serviço realizou 83.510 teleatendimentos para 33.044 pacientes, alcançando 1.587 municípios dos 27 estados brasileiros. Mais do que uma ferramenta tecnológica, esse modelo permite apoiar equipes locais, acompanhar pacientes e ampliar o acesso a especialistas.
Essa integração continua depois do tratamento. Em 2025, as três unidades de reabilitação do HA, localizadas em Barretos (SP), Porto Velho (RO) e Araguaína (TO), realizaram 134.925 atendimentos. A instituição também mantém uma unidade dedicada aos cuidados paliativos oncológicos, com atuação multiprofissional e atendimento presencial e por telemedicina.
São frentes que dialogam diretamente com o chamado da OMS para que os sistemas de saúde valorizem o cuidado tanto quanto a cura e considerem, além da sobrevivência, a autonomia, a funcionalidade e a qualidade de vida.
Ciência voltada às necessidades da população brasileira
Outro ponto central do relatório é a necessidade de aproximar pesquisa e inovação das prioridades reais de saúde pública, especialmente nos países de baixa e média renda.
Nesse campo, o Hospital de Amor reúne assistência, formação profissional, pesquisa clínica, oncologia molecular, inteligência artificial, biobanco e inovação aplicada ao SUS. A rede de Biobancos do HA possui mais de 442 mil amostras biológicas e está em expansão para diferentes regiões do país, contribuindo para pesquisas mais representativas da diversidade da população brasileira.
Um exemplo foi o estudo realizado com 1.131 pacientes atendidos em Barretos e Porto Velho e publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas. O trabalho analisou características clínicas, moleculares e de ancestralidade de pacientes com câncer de pulmão, produzindo evidências capazes de aperfeiçoar protocolos e ampliar a precisão do tratamento no contexto do SUS.
“Para que a ciência responda ao câncer no Brasil, ela precisa representar a população atendida pelo SUS. Isso significa produzir dados brasileiros, compreender diferenças regionais e transformar descobertas em soluções que possam ser incorporadas em escala. A pesquisa cumpre plenamente seu papel quando melhora decisões e chega ao paciente”, destaca o Dr. Vinicius Vazquez, médico, pesquisador e diretor executivo do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor.
Produzir conhecimento a partir das populações atendidas pelo sistema público é uma maneira de enfrentar uma desigualdade histórica da ciência: a baixa representação de países e grupos populacionais que concentram parte crescente da carga mundial de câncer.

As direções apontadas pela OMS já encontram correspondência concreta em diferentes frentes desenvolvidas pelo HA.
Capacidade instalada a serviço do SUS
As direções apontadas pela OMS já encontram correspondência concreta em diferentes frentes desenvolvidas pelo Hospital de Amor. Diante do crescimento projetado dos casos de câncer, o desafio não é inaugurar uma nova agenda institucional, mas ampliar o alcance das experiências construídas, sistematizar aprendizados e compartilhar soluções capazes de fortalecer o SUS.
Esse movimento depende da articulação entre instituições de saúde, gestores públicos, universidades, empresas, organizações da sociedade civil e comunidades. É por meio dessa construção conjunta que experiências bem-sucedidas podem alcançar novos territórios e beneficiar um número maior de pessoas.
“Nenhuma instituição conseguirá responder sozinha ao crescimento projetado pela OMS. Nosso papel é somar: colocar a estrutura, os dados, a capacidade de formação e a experiência do HA a serviço de soluções que possam ganhar escala no SUS. Para nós, parceria estratégica só faz sentido quando encurta distâncias, amplia acesso e melhora concretamente o cuidado oferecido à população brasileira”, afirma Henrique Prata Filho, diretor de Desenvolvimento Institucional e Parcerias Estratégicas do Hospital de Amor.
Em articulação com gestores públicos e redes locais de saúde, podem ganhar maior escala:
• os modelos de prevenção e rastreamento já desenvolvidos pela instituição, fortalecendo sua integração com a Atenção Primária, a busca ativa e a condução dos casos suspeitos;
• a produção e o compartilhamento de evidências geradas a partir de dados assistenciais e científicos, contribuindo para decisões sobre diagnóstico, tratamento, sobrevida, qualidade de vida e desigualdades territoriais;
• as iniciativas de formação profissional realizadas pelo Instituto de Ensino e Pesquisa, pelo IRCAD América Latina, pela telessaúde e por outras parcerias;
• a qualificação contínua do cuidado centrado na pessoa, incorporando a experiência de pacientes, sobreviventes, familiares e cuidadores;
• o desenvolvimento e a avaliação de pesquisas e tecnologias concebidas para a realidade do SUS, considerando efetividade, custo, possibilidade de escala e representatividade da população brasileira.
A contribuição do Hospital de Amor está justamente em atuar como parte de uma rede: atendendo, formando profissionais, produzindo conhecimento, desenvolvendo e testando soluções e compartilhando experiências capazes de fortalecer o sistema público.
O relatório da OMS recebeu como subtítulo “O futuro que escolhemos juntos”. Mais do que uma projeção sobre 2050, ele representa uma decisão colocada diante do presente. O conhecimento já existe. O que definirá o futuro será a capacidade de transformá-lo em prevenção, acesso, cuidado e políticas públicas que não deixem ninguém para trás.

A contribuição do HA está justamente em atuar como parte de uma rede: atendendo, formando profissionais, produzindo conhecimento, desenvolvendo e testando soluções e compartilhando experiências capazes de fortalecer o sistema público.
