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21 de agosto | 2026

Síndrome de Von Hippel-Lindau: Hospital de Amor alerta sobre condição rara que aumenta o risco de tumores

AVHL aumenta a predisposição a tumores em diferentes órgãos, incluindo rins e sistema nervoso central.

A síndrome VHL pode ser identificada ainda na infância. Quando o pai ou a mãe apresenta histórico familiar da doença, é indicado realizar o teste genético.

Você já ouviu falar na síndrome de Von Hippel-Lindau (VHL) e a sua relação com tumores?
A doença de Von Hippel-Lindau (VHL) é uma condição genética hereditária rara causada por alterações no gene VHL, localizado no cromossomo 3p25-p26. Esse gene atua como um supressor de tumor (como se fosse um “freio”), sendo responsável por produzir a proteína pVHL, que ajuda a controlar o crescimento e a multiplicação das células. Quando há uma alteração que compromete essa função, aumenta a predisposição ao desenvolvimento de tumores e outras lesões em diferentes órgãos.

“A VHL apresenta prevalência estimada de aproximadamente um caso a cada 27.300 a 39.000 nascidos vivos, o que a caracteriza como uma doença rara. A condição segue um padrão de herança autossômica dominante: uma pessoa que possui a alteração no gene VHL tem 50% de chance de transmiti-la aos filhos. Entretanto, nem todos os casos são herdados dos pais. Em algumas situações, a alteração genética surge pela primeira vez no indivíduo (mutação de novo), que pode posteriormente transmiti-la às próximas gerações”, explica o médico geneticista e coordenador do Departamento de Oncogenética do Hospital de Amor Amazônia, Dr. Joshua Werner Bicalho da Rocha.

A síndrome VHL pode ser identificada ainda na infância. Quando o pai ou a mãe apresenta histórico familiar da doença, é indicado realizar o teste genético, capaz de detectar alterações no gene VHL e confirmar se a criança herdou ou não a síndrome. Na ausência de histórico familiar, a investigação pode ser iniciada quando surgem alterações características da doença, como lesões na retina, hemangioblastomas no sistema nervoso central ou outros tumores associados à VHL.

Como a VHL favorece o aparecimento de tumores? Em condições normais, a proteína pVHL participa do controle dos chamados Fatores Induzidos por Hipóxia (HIF), mecanismos relacionados à resposta celular quando há pouco oxigênio disponível. Na doença de VHL, essa função fica comprometida.

“Na ausência de pVHL funcional, a falha faz com que a célula ‘pense’ de forma permanente que está em um estado de privação severa de oxigênio (hipóxia crônica). Isso ativa a transcrição contínua de genes que estimulam a angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos), a proliferação e sobrevivência celular e o metabolismo glicolítico. O resultado macroscópico dessa cascata é a formação de tumores altamente vascularizados e com alto potencial de crescimento”, detalha o geneticista.

A síndrome está associada a diferentes tipos de tumores, benignos ou malignos. Entre as principais manifestações estão os hemangioblastomas do sistema nervoso central e da retina, o carcinoma de células claras renais, lesões na medula espinhal, os feocromocitomas, os tumores neuroendócrinos pancreáticos e os tumores do saco endolinfático.

Ter VHL significa necessariamente desenvolver câncer? “Nem todos os pacientes desenvolverão uma neoplasia maligna ao longo da vida. Entretanto, entre 90% e 95% dos indivíduos podem apresentar algum tipo de tumor ou lesão estrutural relacionada à síndrome até os 60 ou 70 anos, reforçando a importância do acompanhamento contínuo”, ressalta o especialista.

Tumores renais
Segundo dados do MD Anderson Cancer Center, aproximadamente 40% das pessoas com VHL desenvolvem o carcinoma de células renais, o tipo mais comum de câncer de rim.

Diferentemente do câncer renal esporádico (causado por fatores externos como tabagismo, hábitos não saudáveis e exposição ambiental, geralmente diagnosticado após os 60 anos), os tumores associados à VHL costumam surgir entre os 20 e 40 anos. Além disso, costumam acometer ambos os rins e apresentar múltiplos nódulos simultâneos, conforme explica o coordenador do Departamento de Urologia do Hospital de Amor, em Barretos (SP), Dr. Roberto Dias Machado.

“O gene VHL funciona como um ‘freio de emergência’ contra o câncer. Na síndrome, ele apresenta uma mutação que o impede de produzir uma proteína funcional. Sem ela, o corpo acumula HIF e as células renais ‘acreditam’ que o órgão está sem oxigênio. Em resposta, passam a fabricar novos vasos sanguíneos desordenadamente e a se multiplicar de forma agressiva, criando o ambiente propício para o surgimento do carcinoma de células claras”, explica o urologista.

O médico destaca que a grande maioria dos tumores renais em pessoas com VHL não provoca sintomas na fase inicial. Eles costumam ser identificados durante exames de imagem periódicos: “Como os pacientes são inseridos em protocolos de rastreamento desde jovens, os nódulos costumam ser flagrados ainda muito pequenos, medindo milímetros, muito antes de causarem dor ou desconforto.”

O monitoramento dos pacientes com VHL é contínuo e inclui a ressonância magnética do abdômen para acompanhar o parênquima renal, além de exames voltados a outras áreas suscetíveis, como retina, sistema nervoso central, pâncreas, ouvido e glândulas adrenais. “No Hospital de Amor, o intervalo dos exames para acompanhamento das lesões renais varia entre 6 e 12 meses, de acordo com a velocidade de crescimento dos tumores e as características de cada paciente”, ressalta Dr. Roberto Machado.

A cirurgia robótica tem se destacado para a realização de procedimentos mais precisos.

Avanços no tratamento
Como os pacientes podem desenvolver múltiplos tumores ao longo da vida, preservar a função renal é uma prioridade. Nesse cenário, a cirurgia robótica tem se destacado para a realização de procedimentos mais precisos, especialmente as nefrectomias parciais, nas quais apenas a lesão é removida.

“O objetivo é poupar o máximo de tecido renal saudável. A cirurgia robótica tornou-se a tecnologia de escolha por sua precisão milimétrica. O cirurgião comanda braços robóticos que eliminam tremores e oferecem visão 3D de alta definição, permitindo retirar tumores profundos com sangramento mínimo, além de proporcionar uma recuperação pós-operatória mais rápida”, comenta o urologista.

Se antes a cirurgia era a única alternativa, a medicina evoluiu com o surgimento de terapias orais que atuam diretamente no mecanismo genético da doença. “O maior marco recente é o Belzutifano (Welireg), já aprovado pela Anvisa no Brasil. Ele bloqueia diretamente a proteína HIF-2α. Essa terapia-alvo é indicada para pacientes com VHL que apresentam tumores associados sem indicação de cirurgia imediata ou em lesões de difícil acesso, incluindo carcinoma renal, hemangioblastoma do sistema nervoso central e tumores neuroendócrinos pancreáticos. O medicamento tem a capacidade de reduzir o tamanho das lesões ou estabilizá-las”, explica Dr. Roberto Dias Machado.

Tumores no sistema nervoso central
Além dos rins, o sistema nervoso central é frequentemente afetado. Os pacientes podem desenvolver hemangioblastomas, que são tumores vasculares de comportamento benigno no cérebro, cerebelo e medula espinhal, que exigem atenção por poderem comprimir estruturas neurológicas vitais.

O neurocirurgião do HA Amazônia, Dr. Alex Aécio, explica que essas lesões surgem geralmente na fase adulta jovem. “Os hemangioblastomas associados à doença de Von Hippel-Lindau aparecem predominantemente entre a segunda e a quarta décadas de vida. Apesar de serem tumores de baixo grau, podem provocar dor de cabeça, alterações de equilíbrio, tonturas, náuseas e perturbações visuais, dependendo da localização”, afirma.

Como condição genética, não há formas de evitar a síndrome, mas a vigilância constante muda a evolução clínica. “O rastreamento contínuo permite tratar cada lesão antes que ela provoque sequelas neurológicas graves”, enfatiza o neurocirurgião.

Acompanhamento contínuo e abordagem multidisciplinar
A história de Imar Pimentel de Negreiros, paciente do HA Amazônia, ilustra o impacto do seguimento multidisciplinar. Diagnosticado com a síndrome de Von Hippel-Lindau, ele desenvolveu múltiplos hemangioblastomas cerebelares. Aos 38 anos, Imar iniciou a jornada de tratamento aos 12 anos, em São Paulo. Em 2023, tornou-se paciente da unidade em Porto Velho (RO), onde passou por procedimentos para ressecção de tumores e controle de hidrocefalia.

“O caso do Imar reforça a importância da integração entre neurocirurgia, oncologia, urologia, radiologia e genética. Apesar da complexidade e das intervenções necessárias, o paciente apresenta estabilidade das lesões e segue em monitoramento regular para prevenção de novas manifestações”, conclui Dr. Alex Aécio.