Biorrepositório reúne amostras de sangue e informações de mais de 7 mil participantes para investigar como genética e estilo de vida se relacionam com o risco da doença.

A proposta é analisar o DNA dos participantes em conjunto com dados sobre seus hábitos e condições de vida, buscando evidências que possam orientar uma prevenção mais personalizada no SUS.
O Hospital de Amor está ampliando um biorrepositório que reúne amostras de sangue e informações de pessoas com e sem câncer para estudar o risco da doença na população brasileira. A proposta é analisar o DNA dos participantes em conjunto com dados sobre seus hábitos e condições de vida, buscando evidências que possam orientar, no futuro, uma prevenção mais personalizada no Sistema Único de Saúde (SUS).
Estruturado em Barretos (SP), o projeto já conta com mais de 7 mil participantes de todas as regiões do país. A meta é alcançar pelo menos 10 mil pessoas e ampliar a representação das diferentes regiões brasileiras.
A criação dessa base de pesquisa foi descrita em um artigo publicado na revista científica iScience, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Na etapa apresentada no estudo, o biorrepositório contava com 4.062 participantes e 39.700 amostras derivadas de sangue. Os números atuais refletem a continuidade e a expansão do projeto.
Genética e contexto de vida
O biorrepositório é um conjunto de amostras biológicas e informações destinado a uma pesquisa específica. Para sua estruturação, o Hospital de Amor utilizou a experiência e a infraestrutura do biobanco institucional, que funciona desde 2006 e apoia diferentes estudos sobre o câncer.
Além de fornecerem uma amostra de sangue para análise do DNA, os participantes respondem a um questionário sobre alimentação, história clínica e familiar de câncer, atividade física, tabagismo, profissão e outras possíveis exposições. A combinação dessas informações permite investigar a relação entre a predisposição genética e as condições de vida de cada pessoa. “Assim, podemos estudar não apenas as características genéticas dos participantes, mas também o contexto em que cada pessoa vive, além da interação entre ambos os fatores”, explica o Dr. Rui Manuel Reis, diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor (IEP).
O que a pesquisa busca descobrir
Nesta primeira etapa, foram estudados os cânceres de mama, colorretal e do colo do útero. Esses tumores foram escolhidos por sua relevância no Brasil e pela existência de medidas de prevenção, rastreamento ou detecção precoce que podem beneficiar a população.
Uma das ferramentas que os pesquisadores pretendem avaliar é o score poligênico de risco. Ele combina centenas ou milhares de pequenas variações no DNA que, somadas, podem aumentar ou diminuir a predisposição a determinado tipo de câncer.
O resultado é uma estimativa de predisposição genética, que precisa ser interpretada em conjunto com outros fatores, como alimentação, excesso de peso, atividade física e tabagismo. Um score elevado não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá a doença.
Grande parte desses scores foi desenvolvida a partir de estudos internacionais, com forte predominância de participantes de ancestralidade europeia. Segundo o Dr. Rui, é necessário verificar se essas ferramentas também estimam corretamente o risco na população brasileira, considerando sua diversidade genética e as particularidades de seus hábitos e exposições ambientais.

A iniciativa integra o trabalho de pesquisa do HA.
O que já foi demonstrado
Na etapa apresentada na publicação, a base reunia 4.062 participantes e 39.700 amostras derivadas do sangue dessas pessoas. Esses dados correspondem ao período analisado no artigo; o projeto continuou recebendo novos participantes desde então.
As análises genéticas confirmaram a diversidade da população estudada, com contribuições de ancestralidades europeia, africana, indígena e asiática. Embora o estudo inclua pessoas de todas as regiões brasileiras, a maior parte dos participantes descritos na publicação era do Sudeste. Ampliar a representação das demais regiões é uma das prioridades do projeto.
O artigo ainda não apresenta um score brasileiro validado para uso na rotina clínica. As análises mais avançadas são as de câncer colorretal, cujos resultados os pesquisadores pretendem apresentar em uma próxima publicação. O estudo também está sendo ampliado para incluir cânceres de pulmão, pâncreas e estômago, além do melanoma.
Como a pesquisa poderá contribuir para o SUS
As próximas etapas incluem avaliar quais scores funcionam melhor na população brasileira, testá-los em um número maior de pessoas e confirmar os resultados em outros centros e regiões do país. Antes de uma eventual incorporação ao cuidado, será necessário demonstrar que a ferramenta estima o risco de forma confiável e que seu uso traz benefícios à população.
No futuro, uma pessoa com maior predisposição ao câncer colorretal, por exemplo, poderia iniciar o rastreamento mais cedo, caso os estudos demonstrem que essa abordagem é benéfica. A combinação das informações genéticas com os dados de estilo de vida também poderá ajudar a reforçar ações voltadas a fatores modificáveis, como alimentação, excesso de peso e sedentarismo.
A iniciativa integra o trabalho de pesquisa do Hospital de Amor, instituição que oferece atendimento oncológico 100% gratuito pelo SUS. “A proposta é produzir evidências que permitam ao SUS oferecer uma prevenção mais personalizada e direcionar melhor os recursos disponíveis”, destaca o Dr. Rui Manuel Reis.
Biobanco e biorrepositório na pesquisa do HA
Em funcionamento desde 2006, o biobanco do Hospital de Amor é um dos maiores da América Latina, com um acervo que reúne mais de 440 mil amostras biológicas destinadas a apoiar diferentes pesquisas em oncologia.
O biobanco é uma coleção organizada de materiais biológicos e informações associadas, mantida sob gestão da instituição para apoiar diferentes estudos, inclusive pesquisas futuras. Já o biorrepositório reúne amostras coletadas e armazenadas para um projeto de pesquisa específico, sob gerenciamento do pesquisador responsável.
Neste caso, a coleção foi organizada para investigar a relação entre genética, estilo de vida e risco de câncer na população brasileira. A experiência e a infraestrutura do biobanco institucional deram suporte à criação desse biorrepositório, que reúne as amostras de sangue e as informações dos participantes do projeto.
Conheça o estudo publicado na revista iScience: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42548822/
