Silencioso nas fases iniciais, o câncer de pulmão está entre os tumores mais letais do país. Especialista do HA explica os fatores de risco, os sinais de alerta, as possibilidades de rastreamento e os avanços que têm transformado o tratamento da doença.

Dr. Rodrigo Chiarantano é radiologista torácico do Hospital de Amor.
A notícia de que o Papa Leão XIV teria sido diagnosticado com câncer de pulmão e passado por uma cirurgia para a retirada de parte do pulmão direito trouxe novamente a doença para o centro das atenções. Segundo informações divulgadas em outubro de 2026, o diagnóstico seria de adenocarcinoma, um dos tipos mais comuns de câncer de pulmão. O caso também reforça a importância de ampliar o conhecimento sobre uma doença que pode evoluir silenciosamente e nem sempre apresenta sintomas nas fases iniciais.
No Brasil, o câncer de pulmão representa um importante desafio de saúde pública. De acordo com as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026–2028, são esperados 35.380 novos casos por ano no país, sendo aproximadamente 18.730 em homens e 16.650 em mulheres. Em 2024, foram registrados 32.465 óbitos pela doença.
Embora o tabagismo seja o principal fator de risco, o câncer de pulmão também pode atingir pessoas que nunca fumaram. A exposição à poluição do ar, a determinadas substâncias no ambiente de trabalho e a fatores genéticos também pode contribuir para seu desenvolvimento.
Mas quais sinais merecem atenção? Como a doença é diagnosticada? Quem pode se beneficiar do rastreamento? E quais avanços da medicina têm ampliado as possibilidades de tratamento?
Para responder a essas e outras perguntas, o Hospital de Amor conversou com o radiologista torácico da instituição, Dr. Rodrigo Sampaio Chiarantano, que explica os principais aspectos da doença e reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acesso oportuno aos serviços de saúde.
O que é o câncer de pulmão e quais são os principais tipos?
O câncer surge quando alterações no DNA fazem com que determinadas células percam o controle de sua multiplicação e passem a crescer de maneira desordenada. No pulmão, esse processo pode dar origem a diferentes tipos de tumores, com características, comportamentos e respostas ao tratamento distintos.
Segundo o Dr. Rodrigo Sampaio Chiarantano, o câncer de pulmão é dividido em dois grandes grupos: o de não pequenas células, responsável por aproximadamente 85% a 90% dos casos, e o de pequenas células, que representa cerca de 10% a 15%.
O primeiro grupo inclui o adenocarcinoma, o carcinoma epidermoide, também chamado de escamoso, e o carcinoma de grandes células. Já o câncer de pequenas células costuma apresentar comportamento mais agressivo, com crescimento rápido e maior tendência a se espalhar precocemente pelo organismo. “O tipo de tumor influencia diretamente a escolha do tratamento, assim como o estágio da doença e as características individuais de cada paciente”, explica o especialista.
Por que pessoas que nunca fumaram também podem desenvolver a doença?
O tabagismo é o principal fator de risco para o câncer de pulmão. Segundo o INCA, cerca de 85% dos casos estão relacionados ao consumo de produtos derivados do tabaco. A exposição passiva à fumaça do cigarro também merece atenção.
Entretanto, não fumar não significa estar completamente livre do risco. Outros fatores podem provocar alterações no DNA das células pulmonares e contribuir para o desenvolvimento do tumor. Entre eles estão:
• Radônio: gás natural, sem cor ou cheiro, que pode se acumular em ambientes fechados. A exposição prolongada está associada ao câncer de pulmão.
• Poluição atmosférica: a exposição a partículas e outros poluentes do ar está relacionada ao desenvolvimento da doença, especialmente do adenocarcinoma.
• Exposição ocupacional: substâncias como amianto, sílica e determinados metais podem aumentar o risco de câncer de pulmão.
• Fatores genéticos e histórico familiar: alterações genéticas herdadas e a presença da doença em parentes próximos podem contribuir para o aumento do risco.
O especialista destaca que esses fatores ajudam a explicar por que a doença também ocorre em pessoas sem histórico de tabagismo. Por isso, conhecer os fatores de risco é importante, mas estar atento aos sinais do próprio corpo continua sendo fundamental.
Quais são os sinais de alerta?
Um dos principais desafios no combate ao câncer de pulmão é o fato de que a doença pode permanecer silenciosa durante boa parte de sua evolução. Em muitos casos, os sintomas aparecem apenas quando o tumor já está em estágio mais avançado.
Além disso, manifestações como tosse e falta de ar podem ser confundidas com problemas respiratórios comuns, especialmente em pessoas que fumam ou têm histórico de doenças pulmonares. Entre os sinais que merecem atenção estão:
• Tosse persistente por mais de três a quatro semanas ou mudança no padrão de uma tosse já existente;
• Falta de ar ou cansaço persistente, especialmente quando há piora progressiva;
• Dor no peito;
• Presença de sangue no escarro;
• Perda de peso sem causa aparente.
A recomendação é procurar avaliação médica diante desses sintomas, sem esperar que desapareçam espontaneamente. A atenção deve ser redobrada em pessoas fumantes, ex-fumantes e com histórico familiar da doença. É importante lembrar que esses sinais não significam necessariamente câncer, pois também podem estar relacionados a outras condições. A investigação médica é essencial para identificar a causa e definir a conduta adequada.
Rastreamento: quem pode se beneficiar?
Como o câncer de pulmão costuma ser identificado tardiamente, o rastreamento de pessoas com maior risco é uma estratégia importante para favorecer o diagnóstico precoce. O exame utilizado para essa finalidade é a tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD), que permite identificar alterações pulmonares suspeitas antes mesmo do aparecimento de sintomas, utilizando uma dose reduzida de radiação em comparação com a tomografia convencional.
De acordo com o Dr. Rodrigo, as sociedades brasileiras de Pneumologia, Cirurgia Torácica e Radiologia recomendam o rastreamento anual para pessoas de 50 a 80 anos que fumam ou deixaram de fumar há menos de 15 anos e apresentam carga tabágica de pelo menos 20 anos-maço.
A carga tabágica é calculada multiplicando-se o número de maços de cigarros consumidos por dia pelos anos de tabagismo. Assim, uma pessoa que fumou um maço por dia durante 20 anos, por exemplo, apresenta uma carga tabágica de 20 anos-maço.
Estudos científicos demonstram que o rastreamento por tomografia de baixa dose pode reduzir a mortalidade por câncer de pulmão. Entretanto, sua indicação deve considerar os critérios de risco, os possíveis benefícios e as limitações do exame.
O especialista ressalta que, até o momento, o Brasil ainda não dispõe de uma diretriz nacional do Ministério da Saúde que recomende o rastreamento populacional da doença. Também não existem critérios estabelecidos para rastrear rotineiramente pessoas que nunca fumaram, embora essa seja uma área de intensa investigação científica.
O que é o adenocarcinoma, tipo associado ao diagnóstico do Papa?
O adenocarcinoma é um dos principais subtipos do câncer de pulmão de não pequenas células e o tipo mais frequente da doença. Ele se origina em células com características glandulares, geralmente relacionadas à produção de substâncias como o muco, e pode ocorrer tanto em fumantes quanto em pessoas que nunca fumaram.
A identificação do subtipo tumoral é uma etapa importante da investigação, pois contribui para definir a estratégia terapêutica mais adequada. Entretanto, conhecer apenas o tipo de câncer não é suficiente para determinar o tratamento ou estabelecer um prognóstico. É necessário avaliar também a extensão da doença, suas características moleculares e as condições gerais de saúde do paciente. Por isso, informações isoladas sobre um diagnóstico não permitem concluir quais serão as possibilidades de tratamento ou as chances de recuperação de uma pessoa específica.

Como o câncer de pulmão costuma ser identificado tardiamente, o rastreamento de pessoas com maior risco é uma estratégia importante para favorecer o diagnóstico precoce.
Como é definido o tratamento?
A escolha do tratamento depende principalmente do tipo de câncer, do estágio em que a doença se encontra, das características moleculares do tumor e das condições clínicas do paciente. Nos tumores de não pequenas células diagnosticados em fases iniciais, quando a doença ainda está localizada, a cirurgia pode oferecer uma possibilidade de cura (protocolo possivelmente adotado pela equipe médica do Papa Leão XIV). Em situações específicas, a radioterapia também pode ser utilizada com intenção curativa, especialmente quando a cirurgia não é indicada.
Quando o câncer já se disseminou para outras partes do organismo, o tratamento costuma envolver terapias sistêmicas, que atuam em diferentes regiões do corpo. Entre as opções estão a quimioterapia, a terapia-alvo e a imunoterapia, que podem ser utilizadas isoladamente ou em combinação, conforme as características de cada caso. Já o câncer de pequenas células apresenta, em geral, comportamento mais agressivo e tendência à disseminação precoce. Por isso, seu tratamento costuma envolver terapias sistêmicas e, em determinadas situações, radioterapia.
Independentemente da abordagem escolhida, o acompanhamento médico é fundamental durante e após o tratamento, tanto para avaliar a resposta terapêutica quanto para monitorar possíveis recidivas ou o surgimento de novos tumores.
Quais são os avanços no tratamento do câncer de pulmão?
Nas últimas décadas, o tratamento do câncer de pulmão passou por importantes transformações. Além dos avanços nas técnicas cirúrgicas e na radioterapia, o desenvolvimento de terapias personalizadas ampliou as possibilidades de controle da doença e, em situações específicas, de cura.
Um dos avanços mais importantes foi a compreensão de que tumores aparentemente semelhantes podem apresentar alterações moleculares diferentes, que influenciam seu comportamento e sua resposta aos medicamentos. A partir dessa descoberta, foram desenvolvidas as terapias-alvo, medicamentos direcionados a alterações genéticas específicas das células tumorais, como determinadas mutações no gene EGFR. Para identificar essas alterações, podem ser necessários exames moleculares realizados a partir de amostras do tumor.
Outra inovação importante é a imunoterapia, que estimula o sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerígenas. Dependendo do tipo e do estágio da doença, esses medicamentos podem ser utilizados em casos avançados e também em determinadas situações de tratamento perioperatório, antes ou depois da cirurgia.
A radioterapia também evoluiu, tornando-se mais precisa e permitindo direcionar a radiação ao tumor com maior proteção dos tecidos saudáveis ao redor. “Hoje, o tratamento do câncer de pulmão é extremamente personalizado, levando em consideração as características do tumor, o perfil molecular, as condições clínicas do paciente e suas preferências”, destaca o Dr. Rodrigo Chiarantano.
Apesar dos avanços, o acesso a essas tecnologias ainda apresenta diferenças entre os sistemas público e privado de saúde. A incorporação de novos medicamentos ao Sistema Único de Saúde (SUS) passa por avaliação técnica, científica e econômica, e a ampliação do acesso continua sendo um desafio importante.
Prevenção e diagnóstico precoce: uma mensagem para a população
Embora nem todos os casos de câncer de pulmão possam ser evitados, algumas medidas ajudam a reduzir o risco da doença. A principal delas é não fumar. Para quem já fuma, abandonar o cigarro é uma das decisões mais importantes para a saúde, independentemente da idade ou do tempo de tabagismo.
Parar de fumar reduz o risco de desenvolver câncer de pulmão, melhora a saúde de maneira geral e pode favorecer os resultados do tratamento caso a doença seja diagnosticada. O SUS oferece apoio para quem deseja abandonar o tabagismo, e buscar ajuda profissional pode tornar esse processo mais viável.
Para pessoas que se enquadram nos critérios de risco, conversar com um médico sobre a possibilidade de realizar a tomografia computadorizada de baixa dose também pode ser uma medida importante. Já quem nunca fumou deve evitar a exposição à fumaça do cigarro e procurar avaliação médica diante de sintomas persistentes, como tosse, falta de ar, dor no peito ou perda de peso sem explicação.
O câncer de pulmão continua sendo uma doença desafiadora, mas o conhecimento sobre seus fatores de risco, a atenção aos sinais de alerta, o rastreamento de pessoas elegíveis e os avanços científicos oferecem caminhos importantes para melhorar os resultados do cuidado.
Quanto mais cedo o câncer de pulmão é identificado, maiores podem ser as chances de um tratamento curativo. Informação, prevenção e acesso oportuno à assistência fazem a diferença.
O trabalho do Hospital de Amor
Desde 2019, o Hospital de Amor oferece rastreamento do câncer de pulmão para pessoas que atendem aos critérios de risco em suas áreas de abrangência. A instituição também participa de pesquisas sobre biomarcadores que buscam aprimorar a identificação de indivíduos com maior probabilidade de desenvolver a doença. A iniciativa integra o esforço para ampliar as possibilidades de diagnóstico precoce e contribuir para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de prevenção e cuidado.
Em Barretos (SP) e região, pessoas interessadas em obter informações sobre o programa de rastreamento podem entrar em contato com o Hospital de Amor pelo telefone (17) 3321-6600, ramais 7010 ou 7080 para verificar os critérios de elegibilidade e o agendamento do exame.
