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19 de junho | 2026

Entre Brasil e Haiti, uma médica aprende no HA para transformar o futuro da oncologia pediátrica em seu país

Na semana em que os dois países se encontram na Copa do Mundo, a história da médica haitiana mostra que alguns laços atravessam o futebol: passam pela ciência, pelo cuidado e pela esperança de salvar vidas.

Entre Brasil e Haiti, uma médica aprende no HA para transformar o futuro da oncologia pediátrica em seu país.

Nesta sexta-feira, Brasil e Haiti estarão em lados opostos dentro de campo. Mas, fora dele, uma história vivida no Hospital de Amor mostra que a relação entre os dois países também pode ser de encontro, aprendizado e cooperação.

A médica haitiana Rose Andrée Solon, de 35 anos, chegou ao Brasil em 4 de junho de 2023. Veio sozinha, sem falar português, trazendo na bagagem uma missão que começou muito antes de atravessar fronteiras: especializar-se em oncologia pediátrica para, um dia, voltar ao Haiti e ajudar a transformar a realidade de crianças com câncer em seu país.

Atualmente, Rose é médica residente no Hospital de Amor Infantojuvenil, em Barretos (SP), onde se especializa em Hematologia e Oncologia Pediátrica. Ao concluir sua formação, deverá se tornar a segunda oncologista pediátrica do Haiti.
A escolha pela especialidade nasceu da experiência dela ainda em solo haitiano. Antes de vir ao Brasil, Rose fez residência em Pediatria no único hospital pediátrico do Haiti, pela Universidade Notre-Dame d’Haiti (UNDH/ FMSS). Foi ali, acompanhando crianças em tratamento, que percebeu não apenas a complexidade da doença, mas também a força de seus pequenos pacientes.

“São crianças muito inteligentes, que sabem sobre a doença, sobre o tratamento e que ajudam também no manejo. Por causa da fragilidade delas e das histórias que elas têm, eu vi que essa era a especialização que eu queria fazer”, conta.
No Haiti, segundo Rose, a oncologia pediátrica ainda é uma área extremamente carente. Há apenas uma médica especialista atuando no país há mais de duas décadas. Por isso, quando surgiu a oportunidade de se candidatar a um programa internacional de formação, ela decidiu tentar.

Atualmente, Rose é médica residente no HA Infantojuvenil, onde se especializa em Hematologia e Oncologia Pediátrica.

O caminho até o Hospital de Amor passou por uma seleção ligada ao St. Jude Children’s Research Hospital, referência mundial em câncer infantojuvenil, com hospitais parceiros em diferentes países da América Latina, entre eles o HA, que é considerada uma instituição-irmã. Depois de uma prova escrita em espanhol e de uma entrevista em francês, Rose conheceu o Hospital de Amor por meio do Dr. Luiz Fernando Lopes, então diretor médico do HA Infantojuvenil, que apresentou a ela a instituição brasileira. “Eu nunca tinha ouvido falar do Hospital de Amor. Ele me falou que era um hospital que cuidava das crianças com amor e disse que eu iria gostar daqui. Ele tinha razão”, relembra.

Quando decidiu ir para Barretos, Rose não falava português. Recebeu apoio para aprender o idioma e, aos poucos, foi encontrando no Brasil mais do que um lugar de formação profissional. Encontrou acolhimento. “Eu cheguei ao Brasil sozinha. Não falava nada de português, mas todo mundo me ajudava. As pessoas não me tratavam como estrangeira, mas como se eu fizesse parte do Brasil. Hoje, o Brasil é meu país de coração”, afirma.

No Hospital de Amor, Rose encontrou uma estrutura que, segundo ela, reúne recursos técnicos, diagnóstico, tratamento e cuidado integral para crianças com câncer. Mas foi a forma de cuidar que mais marcou sua trajetória. “Eu aprendo a cuidar das pessoas de verdade. Não somente a fazer quimioterapia ou dar medicação para dor, mas a ouvir os pacientes, dedicar tempo a eles e cuidar também da parte psicológica. Acho que isso também é o melhor tratamento que uma família poderia buscar”, diz.

A médica conta que existe uma Rose antes e depois do Hospital de Amor. Antes, ela se via mais distante dos pacientes: examinava, explicava o tratamento e seguia. Hoje, diz que aprendeu a olhar para além da doença. “A Rose de agora é a Rose que chega no paciente, que dá abraço, que sabe o nome do pai, da mãe, dos irmãos. Que sabe a história da criança, não somente a história da doença. O que ela gosta, o nome do cachorro, do gato. É uma Rose com mais sensibilidade e mais empatia”, afirma.

Essa transformação aparece nos corredores do Hospital de Amor Infantojuvenil. Muitas crianças correm para abraçá-la quando a encontram. Para Rose, esses gestos simples dão sentido aos dias mais difíceis e renovam sua força. “Quando um paciente chega em mim, me abraçando, me dando beijo, isso faz diferença. Toda vez que isso acontece, eu tenho mais força para estudar, buscar mais informações e oferecer o melhor tratamento possível. Quando eu voltar ao Haiti, quero ser uma médica completa, uma médica cinco estrelas”, emociona-se.

A história de Rose também simboliza uma das grandes vocações do Hospital de Amor: formar profissionais, compartilhar conhecimento e ampliar o impacto do cuidado oncológico para além de suas unidades. Em uma instituição reconhecida pela assistência 100% gratuita, pela humanização, pelo ensino, pela pesquisa e por parcerias internacionais, cada trajetória de formação pode se multiplicar em muitos outros lugares. No caso de Rose, esse impacto terá destino certo: o Haiti.

No Hospital de Amor, o Brasil entrou na vida de uma médica haitiana.

Na semana em que Brasil e Haiti se encontram pela Copa do Mundo, ela acompanha o jogo com o coração dividido. Não esconde o orgulho de suas raízes, mas também reconhece o quanto o Brasil mudou sua vida. “A Copa do Mundo, para nós haitianos, tem muita emoção. Não é somente um jogo, não é apenas uma partida. É fraternidade, é amizade. Eu sou orgulhosa das minhas raízes, sou haitiana e vou sempre levar isso comigo. Mas o Brasil mudou minha história como pessoa e como profissional”, afirma.

Dentro de campo, cada país buscará a vitória. Fora dele, a história de Rose mostra que, às vezes, o encontro mais bonito entre duas nações não acontece no placar, mas naquilo que uma ajuda a despertar na outra.

No Hospital de Amor, o Brasil entrou na vida de uma médica haitiana. E, por meio dela, muitas crianças do Haiti poderão receber, no futuro, um pouco do cuidado que ela aprendeu em Barretos: com ciência, excelência e amor.