“Bate no peito e diz: eu sou brasileiro!”

O artista urbano e muralista, Alexsandro Reis, coordenou a pintura.
Se existe uma marca registrada das Copas do Mundo no Brasil, ela está muito além dos gramados. Ela aparece nas ruas coloridas, nas bandeiras penduradas nas janelas e na união de pessoas que se reúnem para celebrar um sentimento em comum. Foi justamente esse espírito que inspirou o trabalho do pintor muralista Alexsandro Reis, de São Paulo (SP), convidado pelo Hospital de Amor para transformar a rua e o estacionamento da unidade infantojuvenil em um grande cenário de cores e esperança.
Esta não é a primeira vez que o artista deixa sua contribuição na instituição. Anteriormente, ele assinou um mural com a imagem dos fundadores no prédio de Captação de Recursos da instituição e também conduziu atividades de pintura em tela com pacientes da unidade infantojuvenil. Desta vez, porém, o desafio foi ainda maior.
Pela primeira vez, Alexsandro coordenou uma pintura dessa proporção, reunindo funcionários, pacientes e voluntários em uma verdadeira seleção da solidariedade. Mais do que criar a arte, foi preciso planejar cada detalhe para que todos pudessem participar. “Quando você faz um trabalho desse porte e sabe que não vai executá-lo sozinho, porque terá crianças e adultos ajudando, muitos deles sem experiência, você precisa pensar em tudo: nas cores, na distribuição das tarefas, nos espaços que serão pintados. Eu consegui organizar isso da melhor maneira para que, no dia, tudo desse certo”, explica.
O trabalho começou muito antes dos primeiros pincéis tocarem o chão. Depois da criação da arte, Alexsandro desenhou os traços na rua e projetou cada elemento para receber os participantes. Foram dois dias dedicados apenas à preparação. Em seguida, vieram as etapas de pintura e, por fim, os acabamentos que deram vida ao projeto. Mas, para ele, o mais importante não está apenas no resultado final. Está no caminho percorrido por cada pessoa que decidiu entrar em campo e deixar sua marca na obra.
“Eu gosto de viver aquele momento. Só de ver tudo acontecendo já é fantástico para mim. Claro que eu espero que essa arte seja vista pelo mundo, por representar algo tão brasileiro, mas a minha maior expectativa é terminar tudo bonitinho junto desse pessoal que tem uma energia muito positiva. Isso já é importante para mim.”

E todos os pacientes da unidade infantojuvenil do HA puderam viver essa experiência!
Entre tintas, risos e mãos coloridas, Alexsandro ajudou a transformar o asfalto em uma grande tela coletiva. Uma obra que, assim como o futebol, reúne diferentes histórias em torno de um mesmo objetivo: celebrar a união, a esperança e o orgulho de vestir, cada um à sua maneira, a camisa do Brasil. “Todos os guerreiros de corpo e alma, com muito suor e pura emoção. É que eu sou brasileiro e, com muito respeito, eu vou torcer com a minha fé pra nossa seleção.”
“Povo que não perde a fé, não foge à luta.”
O verso parece resumir a trajetória de William Reck, pai de Manuela, de 17 anos, e de Lavínia, de 9. Morador de Bombinhas (SC), ele conhece bem o significado de seguir em frente mesmo quando a vida insiste em impor obstáculos difíceis de superar. Há cerca de um ano, Lavínia recebeu o diagnóstico de um tumor na coluna. A notícia mudou completamente a rotina da família. Hoje, a menina está acamada e com os movimentos bastante limitados. Infelizmente, ainda não existe um tratamento capaz de reverter seu quadro. Ainda assim, William e a esposa se recusam a abandonar a esperança. Para eles, cada etapa dessa caminhada carrega um propósito, mesmo nos momentos mais difíceis.
“É triste ver uma criança assim, que ainda nem viveu tudo o que tinha para viver. Eu falei para os médicos fazerem tudo o que fosse possível, mas, às vezes, a gente fica de mãos atadas”, desabafa. Antes da doença, Lavínia era movida pela curiosidade. Dedicada aos estudos, passava horas pesquisando e aprendendo. Gostava de passeios em família, de piqueniques na praia e tinha um interesse especial pela área de zootecnia e pelo estudo dos insetos. “Nesse tempo, eu aprendi o quanto ela é inteligente. Ela só queria estudar”, relembra o pai.
Em meio a uma partida tão desafiadora quanto essa, William encontrou na ação da Copa do Mundo, “Amor que acredita”, um espaço para aliviar o peso da rotina. Enquanto ajuda a colorir ruas e espalhar o espírito brasileiro, ele encontra alguns momentos de respiro. “Essa ação está sendo uma terapia para mim, porque por algumas horas eu consigo esquecer. Eu me apego a essas coisas, a ajudar o próximo, para fugir um pouco desse sentimento de dor e incapacidade”, conta.
E se o presente exige força, o futebol também traz lembranças de tempos mais leves. William recorda das ruas pintadas para as Copas do Mundo e das comemorações que marcaram gerações. A conquista de 1994 ficou guardada na memória, mas foi a de 2002 que deixou as recordações mais especiais. “Minha família toda estava reunida, fazendo churrasco, daquele jeito bem brasileiro. Foi muito marcante.” Agora, ao reviver esse clima, ele sente que a emoção volta a entrar em campo. Entre tintas, bandeiras e histórias compartilhadas, encontra uma forma de transformar a dor em esperança. “Viver isso aqui é muito legal. Tem crianças e adultos que nunca pintaram uma rua para a Copa do Mundo, e isso é muito interessante. Eu só tenho que agradecer o Hospital de Amor pelo atendimento da minha filha, pelos médicos e por tudo o que o tem feito por nós.”
Na arquibancada da vida, onde nem sempre o placar é favorável, William segue fazendo o que o brasileiro sabe fazer como poucos: não abandona a fé, não deixa de lutar e continua acreditando que, mesmo nos acréscimos mais difíceis, ainda pode haver espaço para um novo capítulo de esperança.
Muito além do apito inicial

Em meio às consultas, exames e desafios do tratamento, a ação abre espaço para algo essencial: viver experiências que façam parte da infância.
Para quem acompanha de perto a rotina dos pacientes da unidade infantojuvenil, a pintura da rua representa muito mais do que uma preparação para a Copa do Mundo. Segundo a psicóloga da instituição, Victoria Abala, iniciativas como essa ajudam a resgatar algo que a doença não pode apagar: a infância. No Hospital de Amor, o cuidado vai além do tratamento médico. A instituição busca enxergar cada paciente de forma integral, reconhecendo que, antes de qualquer diagnóstico, existe uma criança com sonhos, brincadeiras e memórias para construir.
“Esses momentos de ir para a rua, pintar e lembrar que é Copa do Mundo fazem com que a criança viva um sonho e construa memórias afetivas. É um trabalho em conjunto com a equipe, com a família, e reforça que a criança continua sendo criança”, explica.
Em meio às consultas, exames e desafios do tratamento, a ação abre espaço para algo essencial: viver experiências que façam parte da infância. Com pincéis nas mãos e cores espalhadas pelo chão, os pequenos deixam por alguns instantes a condição de pacientes para simplesmente participar da festa. Victoria destaca que o hospital é um lugar de passagem, não de permanência. Por isso, cada oportunidade de criar lembranças positivas ganha ainda mais significado. “Ficamos motivados porque é um momento de brincar e ressignificar memórias. Existe uma simbologia muito forte nisso, porque os pequenos momentos trazem grandes aprendizados para todos nós.”
Se dentro de campo uma Copa é decidida por lances que ficam marcados para sempre, fora dele são esses instantes compartilhados que deixam suas marcas mais duradouras. Entre tintas, sorrisos e trabalho em equipe, crianças, famílias e profissionais mostram que algumas das maiores vitórias não aparecem no placar — elas permanecem na memória e no coração de quem participa.
Assim como a canção Bate no Peito celebra um Brasil que se reconhece em cada canto do país — da terra da garoa à Cidade Maravilhosa, do coração da Amazônia aos pampas do Sul —, o Hospital de Amor traduz esse mesmo sentimento de união em sua missão. Conhecido como o “Hospital do Brasil”, ele acolhe pacientes de todos os estados, reunindo histórias, culturas e sotaques diferentes em torno de um objetivo comum: a busca pela vida e pela esperança.
E, se durante a Copa do Mundo as cores verde e amarelo unem milhões de torcedores em uma só torcida, em Barretos elas também ganham outro significado. Entre ruas pintadas, memórias compartilhadas e gestos de solidariedade, o Hospital de Amor mostra que algumas das maiores vitórias do país não acontecem dentro de campo, mas na coragem de quem luta todos os dias e na força de quem escolhe acreditar junto.

A ação mostra que algumas das maiores vitórias do país não acontecem dentro de campo, mas na coragem de quem luta todos os dias no HA, e na força de quem escolhe acreditar junto.
