Em tratamento no Hospital de Amor Infantojuvenil, ele convive, há nove anos, com os desafios impostos pelo câncer em sua vida.

Eduardo Magalhães tem 18 anos e há nove convive com os desafios impostos pelo câncer em sua vida.
O amor tem os seus caminhos e costuma usar pessoas para nos levar a um destino inesperado. Quando menos esperavam, os jovens Eduardo e Isabela viram suas vidas cruzarem, primeiramente, por terem afinidade com batalhas de rima e por gostarem de jogar games na internet. Durante momentos divertidos e de muita conversa, surgiu uma linda amizade que evoluiu para uma história de amor.
Mas antes de falar sobre esta relação cheia de afeto, é preciso apresentar os desafios que Eduardo enfrentou desde os seus 9 anos de idade. Há uma canção que Eduardo e Isabela consideram o hino do casal, é a música “Te Vivo”, do cantor sertanejo Luan Santana. A letra da música fala sobre duas pessoas que não precisam estar juntas fisicamente para se sentirem inteiras, que se enxergam mesmo de olhos fechados, que se dizem tudo sem precisar de palavras. E parece mesmo que esta trilha sonora foi escrita especialmente para este jovem casal.
Eduardo Leite Magalhães tem 18 anos, é natural da cidade paulista São Carlos. Há nove anos, ele convive com os desafios impostos pelo câncer em sua vida. Há 9 anos, ele convive sem nunca ter escolhido, com a força e vontade de viver.
Tudo começou em 2017, quando ele tinha apenas 9 anos. Du, como é carinhosamente chamado pela sua família e amigos, começou a sentir uma forte dor forte na barriga, que os médicos de início confundiram com fezes paradas. Sua mãe, Janaina Leite, 37 anos, diarista, conta que achou que seria “apenas uma lavagem intestinal, e logo ocorreria o seu retorno para casa”. Mas o corpo de Eduardo sabia de algo que ainda não tinha nome: a falta de apetite, o cansaço que não passava, o emagrecimento rápido, o ombro esquerdo que parecia ‘subir’, e os pulmões, cheios de líquido, no qual o direito, segundo os médicos, tinha apenas 10% de funcionamento ativo, tudo isso já era sinais do diagnóstico oncológico que viria a seguir.
Com o coração aflito a família recebeu o diagnóstico do que estava ocorrendo com Eduardo: Du estava com neuroblastoma na suprarrenal, estágio 4. Uma doença que, segundo os próprios médicos, quase nunca aparece depois dos 5 anos de idade, e que, mesmo assim, escolheu o corpo de um menino alegre de 9 anos. Com o diagnóstico em mãos, a família foi em busca do tratamento. Neste período, surgiu a possibilidade de ele ir tratar em outra cidade, mas em abril daquele ano, Eduardo chegou ao Hospital de Amor, em Barretos (SP).
O tumor de Du já havia avançado até a região do abdômen e da coluna. A mãe conta que o tratamento começou com cinco ciclos de quimioterapia. “Depois ocorreu a cirurgia e 90% do tumor foi removido. Após este processo, o garoto ainda enfrentou vinte sessões de radioterapia. Na sequência, ele precisou realizar um transplante autólogo, quando é feito com as próprias células do paciente”, explica Janaina com os olhos marejados ao recordar toda a luta do filho, ainda criança. Afinal, ela viu um corpo pequeno carregando um tratamento gigante.
Por um tempo, pareceu que a guerra tinha sido vencida. Mas em 2020, meio ao turbilhão da pandemia da COVID-19, a doença voltou a assombrar esta família. Desta vez a doença apareceu no mediastino, infelizmente, ela voltou mais agressiva. Du precisou retomar a sua rotina no hospital, quando foram necessários vários ciclos de quimioterapia que não funcionaram. A mãe revela que radioterapia também não funcionou. Os médicos, então, decidiram ‘paliar’ o tratamento, ou seja, quando o paciente é inserido no protocolo de Cuidados Paliativos.
Mas havia ainda um caminho: a iodoterapia, um tipo de medicina nuclear que trouxe mais esperança para eles. Du então encarou de quatro a cinco sessões. “Foram tantos tratamentos que nem me recordo ao certo”, conta a mãe do jovem. E o iodo, contra todas as expectativas, conseguiu parar o tumor. A esperança ressurge novamente, principalmente na vida de Eduardo, que já estava cansado dos tratamentos.
“Depois disso, foram oito meses sem tratamento algum, porque simplesmente não havia mais o que fazer”, relata a mãe. Foi nesse momento que Janaina pediu à médica que não desistisse de seu filho. “E a médica prometeu fazer tudo o que estivesse ao seu alcance”.
Em fevereiro de 2023, surgiu uma nova possibilidade: a imunoterapia. Ao todo, Du fez dezessete sessões. Todo processo é descrito como extremamente doloroso, tão doloroso que foi preciso morfina para que o corpo de Eduardo suportasse. “Ele teve alergia, ele chorou de dor, foi uma época muito difícil pra gente, mesmo assim, ele conseguiu”, explica Janaina.
A vida ao redor também não deu trégua para esta família carismática. A Janaina revela que está desempregada há dois anos; o pai de Eduardo também passa por dificuldades financeiras desde que perdeu seu emprego há um tempo. A família sobrevive, em grande parte, do apoio de voluntários. No fim de 2025, o avô de Du, senhor Cláudio Leite, a quem a família chama de ‘porto seguro’, foi diagnosticado com câncer de garganta em estágio avançado e segue em tratamento paliativo em São Carlos (SP). Neste contexto de desafios, são duas gerações da mesma família, atravessando a mesma dor ao mesmo tempo.
No fim do ano passado, Eduardo precisou retornar à quimioterapia. Houve reações adversas, pois ele chegou a contrair uma bactéria, precisando ficar um mês internado na unidade infantojuvenil do HA. Nesse período, Janaina ficou um mês sem poder trabalhar. “Minha mãe já chorou muito”, conta Eduardo. “Eu sempre falava pra ela que eu não iria morrer. Eu pedia para que ela parar com aquelas lágrimas e que só chorasse quando eu morresse de verdade”, explica Du com uma calma que constrange quem ouve a história deles pela primeira vez.

Du conta que pediu Isa em namoro sem nunca tê-la visto pessoalmente.
No fim de julho deste ano, novos exames mostraram que o tumor, infelizmente, voltou a crescer. Neste mês de agosto, Du começou um novo estudo de imunoterapia. Ele está sob cuidados preventivos na UTI, no local que conhece há tanto tempo. Mas engana-se quem pensa que diante deste turbilhão que a vida apresenta para eles não há motivos para celebrar.
Como dito anteriormente, Isa e Du se conheceram pela internet, ele em São Carlos, ela em Itabuna, na Bahia. Quem diria que conhecer um desconhecido poderia provocar um turbilhão de sentimentos? E de maneira inesperada, alguém de quem nunca se teve notícia vira motivo de felicidade. E uma notificação passa a ser capaz de tirar sorriso do rosto e fazer um coração pulsar? E que bom que ambos não ficaram em silêncio e permitiram se conhecer.
Du conta que pediu Isa em namoro sem nunca tê-la visto pessoalmente. Só neste ano, durante o ‘Baile de Debutantes’, os dois finalmente se encontraram frente a frente pela primeira vez. “Fiquei muito feliz quando eu a vi durante a festa, a gente se viu pela primeira vez. Ficamos um pouco tímidos na hora, mas ficamos felizes demais”, revela Du.
Há poucos dias, Isabela veio para Barretos para ficar perto dele durante o tratamento, ajudando também Janaina nos dias mais difíceis. “Como estou desempregada e preciso fazer faxinas, eu pedi para Isa vir ficar com o Du enquanto ele está internado e ela disse sim. A Isa diz que o amor vai curá-lo”, conta a mãe do paciente. Eduardo revela que sonha em se casar com a sua namorada e ter dois filhos com ela. Ele torce para ficar bom logo para que seu sonho possa se concretizar. Quando perguntada sobre a equipe do Hospital de Amor, Janaina não hesita: fala em encontrar ali muito amor e muito carinho, em gratidão por cada atendimento recebido. “Acho que todo mundo deveria conhecer uma UTI oncológica”, diz ela. “É um lugar onde encontramos muito amor e muita fé. Sou muito grata a todos do hospital, desde a faxineira, enfermeiras, médicos, todos eles nos tratam com muito amor e dignidade” revela.
Depois de nove anos de tratamento, de recaídas, de dores que exigiram morfina para serem suportadas, de um pai desempregado, de uma mãe sem trabalho, de um avô também doente depois de tudo isso, Janaina resume, em uma frase só, o que a mantém de pé: “Todos nós precisamos de um motivo para seguir em frente. Ele é o meu motivo, e a Isabela é o motivo dele”.
