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10 de abril | 2026

Câncer infantojuvenil e autismo: como humanizar o tratamento?

Especialistas do Hospital de Amor explicam a importância do diagnóstico precoce e do olhar interdisciplinar para garantir acolhimento e adesão ao tratamento.

Para uma criança autista, que muitas vezes precisa de previsibilidade e pode ter sensibilidades sensoriais, o ambiente hospitalar pode ser um desafio.

Quando uma criança ou jovem recebe um diagnóstico de câncer, é um dos momentos mais difíceis e desafiador para a família. Nesse contexto, precisamos falar do diagnóstico de câncer em crianças e jovens com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a forma como uma pessoa percebe o mundo e interage com os outros. Ele é chamado de “espectro” porque se manifesta de formas muito diferentes em cada indivíduo, como explica a médica neuropediatra do Centro Especializado em Reabilitação do HA, em Barretos (SP), Dra. Ana Paula Serradela Marques.

“O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios do DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). É um transtorno cujos sinais cardinais envolvem atraso de fala, prejuízo na interação social, interesses restritos e alterações sensoriais como hipo ou hipersensibilidade a ruídos, toque, dor, odores e texturas”, explica a médica.

No contexto oncológico, o impacto é direto. O ambiente hospitalar, por si só, já pode ser desafiador. É um espaço cheio de sons, luzes, pessoas diferentes e mudanças constantes. Para uma criança autista, que muitas vezes precisa de previsibilidade e pode ter sensibilidades sensoriais intensas, tudo isso pode ser ainda mais difícil de lidar.

“O ambiente hospitalar compromete a previsibilidade necessária para a criança autista, e a hipersensibilidade a novos toques, sons e luzes pode resultar em sintomas ansiosos, crises comportamentais e recusa a procedimentos essenciais, como exames e quimioterapia, por exemplo”, destaca a médica psiquiatra do HA Infantojuvenil, Dra. Bárbara Sgavioli Massucato.

A importância do diagnóstico
Nem toda criança ou jovem chega ao HA Infantojuvenil com diagnóstico fechado de TEA, mas é essencial que a equipe esteja atenta aos sinais. A identificação correta do autismo varia conforme o gênero. A Dra. Ana Paula ressalta que a média de idade para o diagnóstico em meninos é de 3 a 5 anos, enquanto em meninas sobe para 5 a 8 anos.

“O autismo em meninas frequentemente é diagnosticado mais tardiamente devido à maior capacidade da menina de se comunicar, ter empatia e usar um recurso chamado ‘masking’ – a imitação de comportamentos sociais para pertencer a um grupo, o que pode levar a diagnósticos equivocados, como ansiedade ou depressão, antes da identificação do TEA.”, explica a neuropediatra.

No HA, o tratamento oncológico em crianças e jovens com diagnóstico de TEA, é especial!

Tratamento humanizado
A humanização é um dos principais pilares do Hospital de Amor, e quando falamos em tratamento oncológico em crianças e jovens, entendemos que o cuidado deve ser centrado na família, principalmente, quando o paciente tem o diagnóstico de TEA.

“O cuidado deve ser pautado na escuta ativa aos pais, que são os verdadeiros especialistas em seus filhos e fundamentais para orientar a equipe sobre sinais de sofrimento e limites de tolerância. Um pilar essencial da humanização é o acolhimento sem julgamentos, compreendendo que comportamentos ‘difíceis’ são, na verdade, manifestações de uma condição que foge ao controle da criança e refletem sua forma de processar o ambiente”, comenta a Dra. Bárbara.

A psiquiatra também reforça a necessidade do trabalho interdisciplinar. “O planejamento deve integrar oncologia, psiquiatria, neuropediatria, psicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e nutrição, entre outros profissionais da equipe multidisciplinar”. Mais do que tratar a doença, o objetivo é garantir um atendimento adaptado e verdadeiramente humano.

Diagnósticos de TEA no Brasil
No Brasil, segundo dados do “Censo Demográfico 2022: Pessoas com Deficiência e Pessoas Diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista”, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, aproximadamente 2,4 milhões de pessoas têm diagnóstico de TEA no país (1,2% da população).

Quando falamos em faixa etária, a prevalência do diagnóstico de TEA (segundo o Censo), foi entre os jovens:
– 2,1% no grupo de 0 e 4 anos de idade.
– 2,6% entre 5 e 9 anos.
– 1,9% entre 10 e 14 anos.
– 1,3% entre 15 e 19 anos.